27. Portuguese Poetry and The Spiritual Power of Writing Poetry with Miguel Royo

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In this episode of Elixir, Helen is talking to Miguel Royo about Modern Portuguese Poetry and his own work:


Topics of discussion:

  • Miguel’s inner voice shifting language from Spanish to Portuguese 

  • The spirituality of writing poetry 

  • Elitism in British poetry communities 

  • How poetry should be shared

  • Young people’s misconceptions about poetry

Texts of the poems:


Tento recordar: um vigor primário.                       

Miguel Royo


Tento recordar: um vigor

primário ecoa-me pela medula

e renasce na nuca arrepiando-me

o esquecimento e forçando-me a regressar.

Tenho o sangue contaminado pelo tempo. Levo

uma criança coagulada no plexo: no início foi a infância.

Escuto os cascos que me batem contra a cerâmica

interna do corpo. Não sei o que espera

para desimpedir as condutas obstruídas da puberdade

e soltar galope: criança cabra, garraio. Sofro-lhe os chifres

que esfregam precários o mel dos alvéolos

com o fastio de permanecer encerrada.

Tornam-se de âmbar escuro ou de obsidiana.

E bastaria um bramido ou investida entre o tórax

e o pensamento emergente para crescer por dentro e soltar

a criança com chifres pelos corredores capitulados. Levar as patas

preparadas sobre a cabeça como uma crina para o escape.

Porque eu seria a criança fera nessa hipótese.


I try to remember: a primal vigour


I try to remember: a primal vigour

echoes through my marrow

and is reborn in the scruff chilling

my oblivion and forcing me to return.

My blood is contaminated by time. I carry

a clotted child in my plexus: in the beginning was childhood.

I hear the hooves beating against the inner

ceramics of my body. I don’t know what it’s waiting

to clear the clogged ducts of puberty

and break into gallop: goat-child, bullock. I suffer the horns

that precariously rub the honey from the alveoli

with the aversion of remaining enclosed.

They turn black amber or obsidian.

And all it takes is a roar or a thrust between the thorax

and the emerging thought to grow inside and unleash

the horned child into the capitulated corridors. Carrying the pawns

prepared over the head like a mane for escape.

Because I would be the wild child in that hypothesis.




Fountain II

Herberto Helder


II

No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem

os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras. E as mães

Aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões

e órgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se

nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,

vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens,

enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas.

Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras.

Elas respiram ao alto e em baixo. São

silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares

da chuva, em volta das candeias. No contínuo

escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam

na combustão dos filhos, porque

os filhos estão como invasores dentes-de-leão

no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,

e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior

de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos

e na agudeza de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,

e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa

que nenhuma morte é possível e as águas

estão ligadas entre si

por meio da mão dele que toca a cara louca

da mãe que toca a mão pressentida do filho.

E por dentro do amor, até somente ser possível

amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.




poesia toda

assírio & alvim

1996


Fountain II

Herberto Helder



On the mother's mad smiles the raindrops

patter down. On their beloved

mad faces the lanterns tap

their yellow fingers.

Swaying. Pure.

Pure raindrops and lanterns. And the mothers

draw near, blowing on their cold fingers,

moving their bodies

through filial bones, tendons,

submerged organs.

And the intrinsic mothers calmly sit down

inside filial heads.

They sit there in slow and urgent silence,

seeing everything

and burning the images, fuelling the images,

while love keeps getting stronger.

Showering them in the face. Tender love.

Fierce love.

And the mothers are ever more beautiful.

Think the sons whom the mothers levitate.

Violent flowers strike their eyelids.

Above and below they breathe

in silence,

theirs faces gleaming in the spray

of raindrops,

around the lanterns. In the continuous

pouring down of sons.

Mothers are the loftiest things

created by sons, since they dwell

in their sons' deflagration, since

sons are like dandelion invaders

in their mothers' terrain.

And mothers are oil wells in the speech of their sons,

spurting through them

from out of the earth.

And the sons dive, in rubber suits, into the depths

of myriad waters

with the mothers wrapped like octopi around their hands

and around their tenderest nerves.

And the son sits with his mother at the head of the table.

Through him the mother fiddles

with the teacups and the forks,

and through her he thinks

no death is possible, and the waters

are connected

through his hand touching the mad face

of his mother who can sense his touch

and through love, in love, until it's only possible

to love everything

and it's possible to rediscover everything through love.



© Translation: 2002, Assírio & Alvim

Translated by Richard Zenith

From: Sights from the South 1, 2002









Retrato

Luis Miguel Nava



A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo-a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.



Portrait

Luís Miguel Nava



Skin was the loneliest part of his body.

There are those who, having locked it

in a chest as deep as the deepest roots,

pretend to not have skin, when

in fact it is but a bit behind in relation to the heart.

With him however it wasn’t like that.

His skin would imitate the sky as best it could.

Small, alone, it was a shy,

a timid skin, which served as a well,

wherein, more than water, he would seek protection.



Translation by Alexis Levitin and Ricardo Vasconcelos



Do Inexplicável

Daniel Faria




Como reporás a terra arrastada

Para a boca?

Foges e foges

E repousas à sombra da velocidade.

E ao extinguires-te dizes

Tudo

O que podia ser dito

Sobre a luz.



Of The Inexplicable

Daniel Faria


How will you replace earth dragged

Towards the mouth?

You run and run

And rest under the shade of speed.

And as you extinguish yourself, you say

Everything

That could have been said

About light.


Translation by João-Maria, on Caliath blog

Há algo que suspeito: a morte é

Miguel Royo


Há algo que suspeito: a morte é

mais um ponto no útero do tempo. Coordenada

que se alastra nas artérias de Deus. Uma brecha

por onde cabe a mínima ave branca. A pedra muda

ou trepadeira no nosso plexo translúcido.

E confunde-se a origem da luz.

Não sabemos se é o reverso da sombra. Apenas

que o coração está à vista e baloiça sobre as costelas

como Cristo, o funâmbulo. Que o sangue se torna ruidoso

escavado no vazio escuro e o mistério introduz dois dedos

obcecados com a linha do horizonte.

Ignorando os sinais que proíbem a revelação.

Do lado inverso da revelação não há nada

a não ser um vazio onde cabem todas as coisas: os ossos,

a merda, o tempo, o hálito desde dentro. Não há distinção

entre um crucifixo e o pássaro abatido no zénite

do seu voo. Somente o pio que se lhe ouve

do outro lado da fissura ou uma pena que esvoaça

antes de embater contra a chapa da balança.

Por isso apago a luz e apalpo no escuro: sei que é na sombra

que está camuflada a figura de Deus. Nesse território de rostos

ao contrário e ruído gaussiano um vulto ganha relevo

ignorando os sinais que proíbem a revelação.



There’s something I suspect: death is

Miguel Royo



There’s something I suspect: death is

just another stitch in the womb of time. A coordinate

that spreads through God’s arteries. A gap

through which the minimal white bird can fit. The mute stone

or creeper in our translucent plexus.

And the origin of light is confused.

We don’t know if it’s the reverse of the shadow. Only

that the heart is visible and it swings on the ribcage

like Christ, the funambulist. That blood becomes loud

excavated in the dark hollowness and mystery inserts two fingers

obsessed with the horizon line.

Ignoring the signs that forbid revelation.

On the reverse side there is nothing

but a void where all things fit: bones,

shit, time, breath from within. There is no distinction

between a crucifix and the bird shot down at the zenith

of its flight. Only the chirp you hear

on the other side of the fissure or a feather that flutters

before hitting the balance plate.

That’s why I switch the light and grope in the dark: I know that

it is in the shadows that God’s figure is camouflaged. In this territory of

upside-down faces and Gaussian noise a shape gains prominence

ignoring the signs that forbid revelation.




About Miguel Royo

Miguel Royo was born in Spain in 1993 and, after a brief stay in Brussels during his childhood, settled in Porto. He studied architecture at the University of Porto. His academic training was marked by parallel interests in cinema and literature, which converged in his final master's dissertation on Tarkovsky's film ‘Stalker’. He collaborates with poetry magazines and websites, such as ‘Caliban’, ‘Enfermaria 6’, ‘Revista Lote’. He has made two short films to date: ‘ÍPSILON’ (2014) and ‘Sueño Ivre In The Red Haus’ (2019). His first book of poetry, ‘Na Pedra a Luz Afia o Gume’ (In the Stone the Light Sharpens the Edge), is from 2021.

https://www.enfermaria6.com/miguel-ezcurdia-royo

https://www.enfermaria6.com/blog/2018/5/30/d81inly4iogfty36p3hi5qc12aqm2t

https://revistacaliban.net/depois-do-amor-a-quarentena-1a15677028e8

https://revistacaliban.net/instruções-para-iniciar-o-dia-6de7e6fc6629